domingo, 2 de agosto de 2009

Um filho ou de repente

Deve ser da força lerda dos braços cansados, do medo suculento das pálpebras caídas. Deve ser do rastro apagado da noite de ontem, as línguas são facas, porta-vozes dos nossos discursos ferozes, a casa do peito tem um telhado que só serve para esconder o céu. Deve ser disso que quero tanto falar, a palavra que escorre dos lábios e nasce num grito, nasce necessária, envolve (n)essa nudez coitada que é a roupa do corpo de sempre, nasce falida, pedindo perdão pelo encontro, desvirginando os poros, nasce impossível, indomável. Minha.

Ando seco, terrível, meio Clarice, falando do túmulo. A página do diário é aquela mesma de meses atrás, rabiscadas algumas linhas com o fôlego infantil da caneta nova, esperando um encontro no lixo. Cheios estão os olhos, um filme inevitável que despreza o meu gosto. Queria falar dos meus dias de férias de um nada expansivo e soberbo, as mil cores de julho na valsa dos meus planos, pouco dinheiro em copos cheios de sorrisos tão breves, tão nossos. Queria falar do meu pai na eterna véspera da colheita dos sonhos, me perder na ignorância das canções de mal gosto da alma e nesse pranto infindável que é pensar no que dizer. Quero.

Quero amar. Um café que desça bem rápido e um cigarro que faça sentido.

5 comentários:

Raffaello Sanzio disse...

Fantástico.

Ana Maria disse...

Até esqueci meus últimas dias de Julho, ao respirar o primeiro dia de Agosto.


Bela volta.

Carmen Martinez disse...

para que eu não fique em silêncio, reproduzo aqui nosso assunto:

quando fala de facas, sinto-as cortando em mim, e quando fala do que quer que seja, é em mim que o poema acontece. Eu não consigo determinar a exatidão do que eu sinto, mas a sua tristeza se pareceu com a minha em muito, e por isso eu me reconheci de alguma forma.

E de verdade, quando fala intimamente de algumas relações, dói o peito por não fazer parte dessas experiências.

É a agonia da distância do amado, assim como sinto por Ana Maria.

Dica disse...

Foi incrível.

Dei tão pouco por você, por Rafael..

Carmen Martinez disse...

você dá pouco por qualquer um que não seja você, Diana.